Sessenta e três milhões de euros por dia. Este é o valor médio que os portugueses apostaram em jogos online durante 2025, totalizando mais de 23 mil milhões de euros ao longo do ano. São números que ainda me impressionam, mesmo depois de anos a acompanhar este setor.
O mercado português de jogo online é um caso de estudo interessante. Regulamentado desde 2015, passou de praticamente zero a uma indústria madura em menos de uma década. Mas 2025 marca uma inflexão — o crescimento exponencial deu lugar a algo mais estável, mais parecido com um mercado consolidado.
Neste artigo, analiso os números que definem o estado atual do mercado: volumes, receitas, tendências. São dados que qualquer apostador informado deve conhecer para compreender o contexto em que opera.
Volume de Apostas em 2025
Os 23 mil milhões de euros de volume total escondem uma divisão importante entre dois mundos muito diferentes.
Os jogos de fortuna ou azar — essencialmente casino online — geraram cerca de 21 mil milhões de euros em volume de apostas. As apostas desportivas ficaram-se pelos 2 mil milhões aproximadamente. Esta diferença de dez para um surpreende quem pensa no jogo online principalmente em termos de apostas de futebol.
A explicação está na mecânica dos jogos. Numa slot, o mesmo dinheiro pode ser apostado dezenas de vezes numa sessão — depositas 100 euros, apostas, ganhas ou perdes, apostas novamente o que resta, e assim sucessivamente. Nas apostas desportivas, o dinheiro fica “parado” até o evento terminar. O volume por euro depositado é muito superior no casino.
As apostas desportivas viram o volume recuar ligeiramente em 2025 — uma queda de 0,9% face a 2024. É a primeira vez que isto acontece desde a regulamentação do mercado, e confirma a tendência de amadurecimento que o setor está a atravessar.
O futebol continua a dominar as apostas desportivas, com 71,8% do volume no terceiro trimestre de 2025. O ténis segue com 22,1%, e o basquetebol completa o pódio. Outras modalidades são residuais no contexto português.
Receitas Brutas do Setor
A receita bruta — o que os operadores efetivamente retêm depois de pagar os prémios — fixou-se em 1,2 mil milhões de euros em 2025. Este é o número que melhor representa a dimensão real do negócio.
O crescimento de 8,5% face a 2024 parece robusto até percebermos que é o menor crescimento anual de sempre desde a liberalização em 2015. Nos primeiros anos, os crescimentos eram de 30%, 40%, 50% ao ano. A maturação do mercado é evidente.
As receitas brutas de jogos de fortuna ou azar atingiram 759 milhões de euros, um crescimento de 11,85%. As apostas desportivas geraram 447 milhões, com crescimento de apenas 3,23% — também o menor de sempre.
A margem dos operadores nas apostas desportivas subiu ligeiramente para 22% em 2025. Este aumento de quase um ponto percentual face a 2024 ajudou a compensar a estagnação do volume. Os operadores estão a extrair mais valor por aposta, mas não conseguem atrair mais volume.
No terceiro trimestre isolado, a receita bruta atingiu 297,1 milhões de euros, um aumento de 11,6% face ao período homólogo. Os trimestres não são todos iguais — a sazonalidade do futebol e de outros eventos afeta significativamente os resultados.
Desaceleração do Crescimento
A desaceleração não é uma surpresa para quem acompanha o setor. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem alertado para esta tendência há vários trimestres.
Os dados de 2025 confirmam uma tendência que se verifica progressivamente — uma desaceleração do crescimento, característica de um setor que entra numa fase de maior maturidade. É a análise oficial da associação que representa os operadores.
As razões são múltiplas. O mercado já captou a maioria das pessoas predispostas a jogar online. A novidade inicial esgotou-se. E a concorrência com o mercado ilegal — onde 40% dos portugueses continuam a apostar — limita o potencial de crescimento do setor licenciado.
A APAJO tem argumentado que o crescimento poderia ser mais significativo com um combate decidido ao jogo ilegal. É um argumento legítimo, embora interessado — os operadores beneficiariam diretamente de uma migração de jogadores do mercado negro para o regulado.
A desaceleração não significa crise. O mercado continua a crescer, apenas mais lentamente. As receitas são robustas, os operadores são rentáveis, e o Estado continua a arrecadar impostos significativos. É uma fase diferente do ciclo de vida do mercado, não o seu fim.
Previsões Para 2026
Prever o futuro de qualquer mercado é arriscado, mas algumas tendências parecem claras e podem orientar expectativas.
O crescimento continuará a abrandar. Sem mudanças estruturais — como um combate mais eficaz ao mercado ilegal ou a abertura de novos produtos — não há razão para esperar uma inversão. Os operadores vão ter de trabalhar mais para cada euro de receita adicional, focando-se em retenção de clientes tanto como em aquisição.
A consolidação do mercado é provável. Com margens sob pressão e crescimento limitado, operadores mais pequenos podem tornar-se alvos de aquisição ou simplesmente abandonar o mercado. Menos operadores, mas mais robustos, é uma evolução típica de mercados maduros em qualquer setor.
A pressão regulatória sobre o mercado ilegal tenderá a aumentar. O SRIJ bloqueou mais sites em 2025 do que em qualquer ano anterior, e a tendência deverá manter-se. Se estas medidas resultarem em migração para o mercado legal, poderá haver surpresas positivas nas receitas.
A tecnologia continuará a transformar a experiência de jogo. Apps mais sofisticadas, apostas ao vivo mais fluidas, novos mercados e produtos inovadores. Os operadores que não inovarem perderão quota para os que o fizerem. A diferenciação tecnológica será cada vez mais importante.
O foco no jogo responsável intensificar-se-á. Reguladores europeus estão a apertar regras sobre limites, verificações de affordability, e proteção de vulneráveis. Portugal seguirá eventualmente estas tendências, alterando a dinâmica de aquisição e retenção de clientes.
Uma Indústria em Fase de Maturação
Os números do mercado português revelam uma indústria que amadureceu rapidamente e agora enfrenta os desafios típicos de setores estabelecidos. Dez anos após a liberalização, o crescimento exponencial deu lugar a aumentos mais modestos. Os 8,5% de 2025 — o menor crescimento de sempre — não são sinal de crise, mas de normalização.
Para os jogadores, este amadurecimento traz vantagens. Operadores competem mais intensamente pela retenção de clientes, o que se traduz em melhores condições, odds mais competitivas, e maior foco na experiência do utilizador. Um mercado maduro é também um mercado mais previsível e estável.
Os 353 milhões de euros arrecadados pelo Estado em 2025 demonstram que o modelo regulatório funciona. Os jogadores que escolhem operadores licenciados contribuem para este ecossistema enquanto beneficiam de proteções legais. Para mais contexto sobre como Portugal se compara a outros países, consulte o nosso artigo sobre regulamentação e licenciamento SRIJ.
Dúvidas Sobre o Mercado
As questões mais comuns sobre a dimensão e evolução do mercado português.