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Influenciadores e Jogo Ilegal: O Problema em Portugal

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As redes sociais são responsáveis por 36,8% dos acessos a operadores sem licença em Portugal. A recomendação de amigos adiciona outros 42,1%. São números que me fazem questionar como é possível, em 2026, tanta gente ainda não perceber a diferença entre um site legal e um ilegal.

Tenho observado este fenómeno de perto. Influenciadores com centenas de milhares de seguidores a promover casas de apostas sem licença em Portugal, muitas vezes sem sequer mencionarem que é publicidade. Os seus seguidores — frequentemente jovens — clicam, registam-se, depositam. E quando algo corre mal, não há ninguém a quem recorrer.

Este artigo analisa a dimensão do problema, como funciona a promoção de sites ilegais através de influenciadores, e que medidas estão a ser discutidas para combater esta prática.

A Dimensão do Problema

Os dados são claros sobre o papel das redes sociais na alimentação do mercado ilegal. Mais de um terço dos jogadores que acedem a sites sem licença chegam lá através de conteúdo nas redes sociais.

O problema é amplificado pelo formato das plataformas. Stories que desaparecem em 24 horas, lives onde se mostram “ganhos” impressionantes, posts com links de afiliado disfarçados de dicas. A rastreabilidade é difícil, a prova de irregularidade ainda mais.

Os sites ilegais oferecem comissões muito superiores às dos operadores licenciados. Enquanto um programa de afiliados legal pode pagar 20-30% da receita líquida gerada por cada jogador, os sites ilegais chegam a oferecer 50%, 60% ou mais. A matemática é simples: mais dinheiro, mais promoção.

O alcance destes influenciadores é significativo. Alguns têm audiências superiores às de meios de comunicação tradicionais. Um post de um influenciador popular pode atingir mais pessoas do que uma campanha publicitária completa de um operador licenciado.

Os 40% de portugueses que apostam em sites ilegais não são todos ingénuos que desconhecem a situação legal. Mas muitos são — e os influenciadores contribuem activamente para essa confusão ao apresentar sites ilegais como se fossem perfeitamente normais.

Como os Influenciadores Promovem Sites Ilegais

A promoção raramente é explícita no sentido de dizer “apostem neste site sem licença”. A sofisticação é maior e por isso mais perigosa.

O formato mais comum são os “tips” ou dicas de apostas. O influenciador partilha previsões para jogos de futebol e inclui um link para onde “costuma apostar”. O site é ilegal, mas a menção é casual, como se fosse apenas a ferramenta que usa.

As lives de casino são outra técnica popular. O influenciador joga slots ou roleta durante horas, com a audiência a ver os “ganhos” em tempo real. O que não mostram são as perdas acumuladas nos dias em que não transmitem. A percepção de que ganhar é fácil e frequente é profundamente distorcida.

Os códigos de bónus personalizados servem dois propósitos: permitem ao influenciador receber comissão sobre cada registo e criam uma sensação de exclusividade. “Usa o meu código para bónus extra” — parece uma partilha entre amigos, não publicidade a um site ilegal.

Ricardo Domingues, presidente da APAJO, foi direto sobre este tema: “Promovem os sites ilegais onde menores podem abrir uma conta.” A questão dos menores é particularmente grave porque muitos sites ilegais não fazem verificações de idade sérias — ao contrário dos operadores licenciados que são obrigados a validar identidades.

Riscos Para Menores e Jovens

A audiência dos influenciadores que promovem jogo é desproporcionalmente jovem. Muitos seguidores têm menos de 25 anos, e alguns menos de 18.

Os operadores licenciados pelo SRIJ são obrigados a verificar a idade e identidade dos jogadores. É um processo que inclui submissão de documentos, validação cruzada com bases de dados, e por vezes verificação manual. Os sites ilegais raramente fazem algo semelhante — basta um email e um método de pagamento.

A exposição precoce ao jogo é particularmente problemática. Os padrões de comportamento formam-se durante a adolescência e início da idade adulta. Quem começa a jogar cedo tem maior probabilidade de desenvolver hábitos problemáticos.

A normalização do jogo através de influenciadores é outro fator de risco. Quando figuras admiradas apresentam o jogo como fonte de rendimento fácil, os jovens internalizam mensagens perigosas sobre dinheiro, risco e probabilidades.

Os 40% de portugueses que apostam em sites ilegais incluem uma percentagem significativa de jovens na faixa 18-34 anos — 43%, para ser preciso. A sobrerepresentação desta faixa etária no mercado ilegal não é coincidência — é o resultado de décadas de exposição a este tipo de marketing.

Medidas em Discussão

A APAJO tem levado este tema à Assembleia da República e outros fóruns. As propostas em discussão variam em ambição e viabilidade.

A proibição total de publicidade ao jogo por influenciadores é uma opção extrema defendida por alguns. O problema é a definição de “publicidade” — uma menção casual é publicidade? Uma opinião sobre um jogo? As zonas cinzentas são muitas.

A obrigatoriedade de identificação clara de parcerias pagas é menos controversa. Exigir que qualquer menção a operadores de jogo seja claramente marcada como publicidade ajudaria os seguidores a avaliar o conteúdo com mais ceticismo.

A responsabilização das plataformas é outro ângulo. Obrigar o Instagram, TikTok e outras redes a remover conteúdo que promova jogo ilegal poderia ser eficaz, mas levanta questões de liberdade de expressão e viabilidade técnica.

O jogo deve ser encarado como entretenimento, não como fonte de rendimento. Ricardo Domingues tem sido claro: “Se virem um influenciador a promover jogo e a dizer que vão ganhar muito dinheiro, é desconfiar.” Esta mensagem de literacia financeira precisa de chegar a mais pessoas.

Enquanto as medidas legislativas são discutidas, a melhor proteção continua a ser individual. Verificar se um site tem licença SRIJ antes de se registar. Desconfiar de promessas de ganhos fáceis. E lembrar que os influenciadores são pagos para promover — não são amigos a partilhar dicas genuínas.

Regulação, Educação e Responsabilidade: O Caminho a Seguir

O papel dos influenciadores no mercado ilegal é uma das questões mais prementes do setor em Portugal. A solução não é simples nem rápida. Passa por regulação mais clara sobre publicidade ao jogo nas redes sociais, educação dos consumidores sobre os riscos do mercado não licenciado, e responsabilidade individual tanto de quem promove como de quem consome.

As plataformas de redes sociais também têm um papel a desempenhar. Enquanto permitirem promoção de operadores ilegais sem consequências, o problema persistirá. A pressão regulatória está a aumentar em toda a Europa, mas os resultados ainda são limitados face à velocidade com que o conteúdo se espalha.

Para os jogadores, a melhor protecção continua a ser a verificação individual. Antes de clicar em qualquer link promovido, confirmar se o operador tem licença SRIJ leva segundos e evita problemas que podem durar muito mais. Para mais informações sobre como distinguir operadores legais de ilegais, consulte o nosso guia sobre licenciamento SRIJ.

Dúvidas Sobre Influenciadores e Jogo

Questões frequentes sobre este tema controverso.

É ilegal promover casas de apostas sem licença?
Sim. A promoção de operadores sem licença em Portugal pode ter consequências legais, embora na prática a fiscalização seja difícil dada a natureza das redes sociais. Os influenciadores arriscam-se a ser considerados cúmplices de atividade ilegal.
Como identificar promoções de sites ilegais?
Desconfie de bónus demasiado generosos, ausência de menção ao SRIJ, links para sites com domínios estranhos, e qualquer conteúdo que prometa ganhos garantidos. Verifique sempre se o operador consta da lista oficial do SRIJ antes de se registar.
O que está a ser feito para combater este problema?
A APAJO tem pressionado por legislação mais restritiva. Propostas incluem obrigatoriedade de identificação de parcerias pagas, responsabilização das plataformas, e maior fiscalização. O progresso tem sido lento mas o tema está na agenda política.