Cento e vinte e três vírgula quatro mil milhões de euros. Esta foi a receita bruta do mercado europeu de jogo em 2024, com o segmento online a representar 39% desse valor — cerca de 48 mil milhões. Portugal, com os seus 1,2 mil milhões, é uma gota neste oceano, mas uma gota interessante de estudar.
Tenho acompanhado não apenas o mercado português mas também as tendências europeias. O que acontece em mercados maiores — Reino Unido, Alemanha, Itália — acaba frequentemente por influenciar Portugal, seja em regulação, produtos ou comportamento dos jogadores.
Neste artigo, coloco Portugal em contexto. Como nos comparamos com os gigantes europeus? Que lições podemos tirar de outros mercados? E o que faz o modelo português distintivo?
Dimensão do Mercado Europeu
A Europa é o maior mercado de jogo do mundo em termos de regulamentação e maturidade. Os 123,4 mil milhões de receita bruta em 2024 distribuem-se por dezenas de países com modelos regulatórios diferentes.
O jogo online representou 39% do total em 2024, mas esta quota está a crescer rapidamente. As projeções indicam que atingirá 40% em 2025, com receita projetada de 51,1 mil milhões de euros. A tendência de migração do físico para o digital é irreversível.
Maarten Haijer, secretário-geral da EGBA (European Gaming and Betting Association), antecipa que o online se aproximará da paridade com o jogo físico até 2029. Isto significa que em menos de cinco anos, as receitas digitais poderão igualar as dos casinos, salas de bingo e outros estabelecimentos físicos.
A penetração do jogo online varia dramaticamente entre países. Na Suécia, 68,3% do mercado de jogo é online. Em Espanha, apenas 14,2%. Portugal situa-se algures no meio, refletindo um equilíbrio entre tradição e digitalização.
Os dispositivos móveis ganharam preponderância absoluta. Em 2024, 58% das receitas do jogo online europeu vieram de smartphones e tablets, contra 56% em 2023. A tendência é clara: o futuro do jogo é móvel.
Os Maiores Mercados: Itália, UK, Alemanha
A Itália lidera o mercado europeu de jogo com 21 mil milhões de euros em receitas brutas em 2023. É um número impressionante que reflete tanto a dimensão do país como a sua cultura de jogo profundamente enraizada.
O Reino Unido segue com 19,8 mil milhões. O mercado britânico é o mais maduro da Europa em termos de jogo online, com operadores que nasceram digitais e uma regulação que serviu de modelo para outros países. As recentes reformas regulatórias — limites de apostas, verificações de affordability — estão a ser observadas atentamente pelo resto da Europa.
A Alemanha, com 14,4 mil milhões, completou recentemente a transição para um mercado regulado com o Interstate Treaty on Gambling de 2021. Foram anos de incerteza legal, e o mercado ainda se está a estabilizar. Os limites de depósito mensais de 1000 euros são dos mais restritivos da Europa.
França e Espanha são os outros grandes mercados, mas com características muito diferentes. França mantém restrições significativas sobre produtos de casino online. Espanha tem uma das regulamentações mais restritivas em termos de publicidade e bónus.
Portugal, com 1,2 mil milhões, é um mercado pequeno em termos absolutos mas com uma estrutura regulatória considerada equilibrada. Não somos tão restritivos como Espanha nem tão liberais como Malta. Este meio-termo tem vantagens e desvantagens.
Penetração do Jogo Online por País
A penetração — percentagem do mercado de jogo que é online versus físico — varia enormemente e diz muito sobre cada mercado.
A Suécia lidera com 68,3% de penetração online. O país nórdico tem uma população tecnologicamente sofisticada e uma infraestrutura digital excelente. A regulamentação também favorece o online face ao físico.
Na outra ponta, Espanha tem apenas 14,2% de penetração online. A cultura de jogo espanhola é muito física — as “casas de apuestas” nos bairros, as máquinas de slots nos bares. A regulamentação restritiva do online contribui para manter esta proporção.
Portugal situa-se numa posição intermédia. Não temos dados precisos de penetração comparável, mas a evolução das receitas online face às receitas dos casinos físicos sugere uma digitalização acelerada. No primeiro semestre de 2025, as receitas online superaram em 4,3 vezes as receitas do jogo territorial.
Os casinos físicos portugueses — Estoril, Vilamoura, Póvoa, Espinho e outros — viram as receitas brutas recuar 1,15% em 2025. As salas de bingo diminuíram 1,56%. O contraste com o crescimento de 8,5% do online é eloquente.
Esta migração para o digital tem implicações sociais importantes. O jogo físico é mais visível, mais controlável em certos aspetos. O jogo online é privado, acessível 24 horas, potencialmente mais difícil de monitorizar por familiares preocupados.
Posição de Portugal no Contexto Europeu
Portugal é frequentemente citado como exemplo de regulação equilibrada. O modelo português consegue um balanço interessante entre abertura de mercado e proteção do consumidor.
A capacidade do SRIJ para adaptar o quadro regulatório às mudanças do mercado, mantendo foco na integridade e proteção, é reconhecida internacionalmente. Outros reguladores europeus estudam a experiência portuguesa quando desenham as suas próprias regras.
O sistema fiscal é outro aspeto distintivo. A taxa de 8% sobre o volume de apostas desportivas é uma das mais altas da Europa quando convertida para equivalentes sobre receita bruta. Isto significa menos valor devolvido aos jogadores mas também mais receita para o Estado.
O combate ao mercado ilegal é onde Portugal menos brilha no contexto europeu. Os 40% de jogadores que apostam em sites sem licença comparam desfavoravelmente com países como o Reino Unido ou Dinamarca, onde o mercado negro é proporcionalmente menor.
A dimensão do mercado — 1,2 mil milhões numa Europa de 123 mil milhões — significa que Portugal não define tendências mas antes as segue. O que acontece nos grandes mercados acaba por influenciar a regulação portuguesa, tipicamente com alguns anos de atraso.
Portugal no Mapa: Um Mercado Pequeno Com Regulação Reconhecida
Compreender o contexto europeu ajuda a situar a experiência portuguesa num quadro mais amplo. As tendências que observamos cá — o crescimento do jogo móvel, a migração para o online, o aumento da regulação — são frequentemente eco do que acontece em mercados maiores como o britânico ou o italiano.
Portugal tem a vantagem de poder aprender com os erros e acertos dos outros. O modelo de licenciamento nacional, frequentemente elogiado pela sua clareza, beneficiou da observação de experiências anteriores noutros países. Esta posição de seguidor informado permite adoptar as melhores práticas enquanto se evitam os erros mais óbvios.
Para os jogadores, o contexto europeu oferece perspectiva. As protecções que temos em Portugal — licenciamento rigoroso, ferramentas de jogo responsável, fiscalização activa — são comparáveis às dos melhores mercados do continente. Para mais detalhes sobre como funciona o sistema português, consulte o nosso guia sobre licenciamento SRIJ.
Dúvidas Sobre o Contexto Europeu
Questões frequentes sobre a posição de Portugal no mercado europeu de jogo.